Pular para o conteúdo principal

O ANGÜERA - LENDA GAÚCHA



SIMÕES LOPES NETO

LENDA GAÚCHA

O Angüera, enquanto foi pagão, chamava-se desse nome era um índio grande, forçudo e valente; mas era triste, carrancudo e calado. 

Quando os padres de Jesus entraram no sertão da serra, corridos que vinham doutro rumo, foi Angüera, o tapejara, que conduziu sem erro a companhia; e quando os padres sentaram pouso, batizou-se. 

E foi padrinho Mbororé, que era cacique e já amigo, muito, dos padres. O nome de Angüera, pagão, ficou sendo Generoso, nome de cristão. 

E foi como cobra que deixa a casca ... 

Angüera, que era triste, deixou a casca de tristura e, como Generoso, de nome bento ficou prazenteiro. 

E ajudou a botar pedra no alicerce de todas as igrejas dos Sete Povos. E durou anos esse ofício!... E ele sempre risonho e cantador. 

Um dia, chamou o padre-cura, confessou-se e foi ungido de óleo santo e morreu. 

Generoso morreu contente, pois a cara do seu cadáver guardou um ar de riso, e foi muito chorado, porque tinha a estima de todos, por ser mui prazenteiro e brincador. 

De forma que a sua alma saiu-lhe do corpo de jeito alegre; e então, invisível, entrava nas casas dos conhecidos, passeava nos quartos e salas, e para divertir-se fazia estalar os forros do teto e os barrotes do chão; e também os trates novos, e os balaios de vime grosso; e, se achava dependurada uma viola, fazia sonar o encordoamento para alegrar-se com a lembrança das suas cantigas, de quando era vivo e cantava ... 

Outras vezes, assobiava nas juntas das portas e janelas, espiando por elas os moradores da casa; e quando os homens rodeavam a candeia, pintando, ou as crianças , brincando, ou as donas costuravam ou faziam nhanduti, o Generoso – a alma dele, pro caso – soprava devagarzinho sobre a chama da luz, fazendo-a requebrar-se e balançar-se que era para a sombra das cousas também mudar de estar quieta ... 


E muitas vezes – até o tempo dos Farrapos – quando se dançava o fandango nas estâncias ricas ou a chimarrita nos ranchos do pobrerio, o Generoso intrometia-se e sapateava também, sem ser visto; mas sentiam-lhe as pisadas, bem compassadas no rufo das violas ... e quando o cantador do baile era bom e pegava bem de ouvido, ouvia, e por ordem do Generoso repetia esta copla, que ficou conhecida como marca de estância antiga: sempre a mesma ... 

“Eu me chamo Generoso, 

“Morador em Pirapó: 

“Gosto muito de dançar 

“Co’ as moças, de paletó ...” 

FONTE 

FILHO, Pedro Haase - Lendas Gaúchas - RBS Publicações - Porto Alegre 2007

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MANOELA: O AMOR GAÚCHO DE GARIBALDI

HISTORIADORA ELMA SANT'ANA Manuela de Paula Ferreira, imagem do século XIX Em Camaquã, na Estância da Barra de Dona Antônia, irmã do General Bento Gonçalves, vivia Manoela com seus familiares. Vieram de Pelotas, que estava ocupada pelos imperiais.  Manoela se enamorou perdidamente por Garibaldi, mas ela era destinada a um filho do comandante Farroupilha. Entre Manoela e Giuseppe – que ela chamava de José – houve um castro romance. O próprio Garibaldi, em suas memorias, escreveu “uma delas, Manoela, dominava absolutamente a minha alma. Não deixei de amá-la, embora sem esperança, porque estava prometida a um filho do Presidente.  A Guerra dos Farrapos continua e uma nova missão – que o levaria até Anita, muda os planos do italiano e o amor pro Manoela. A ordem recebida por Garibaldi, chefe da Marinha Rio-Grandense, era difícil de ser cumprida: “Apoiar com seus lanchões as forças de David Canabarro incumbida de tomar Laguna, a fim de ali estabelecer um porto, h...

HISTÓRIA DA AÇOS FINOS PIRATINI

Leandra Carvalho de Souza Pietro Vinícius Borges Pereira Thaissa Lorrana Naatz de Souza 9C/2018 I-INTRODUÇÃO O trabalho resgata a história da empresa Aços Finos Piratini desde o início do ano de 1973 até nossos dias de 2018.O que Aços Finos Piratini faz: é uma usina siderúrgica voltada para atender principalmente à indústria automotiva. II-JUSTIFICATIVA É importante que a população de Charqueadas compreenda a importância econômica e social desta empresa para história deste município. O significado da construção de um bairro para que os funcionários, que vinham de outros lugares, morassem em Charqueadas. Bem como a construção de um ginásio de esportes e um clube. E até mesmo a ponte que dá acesso a cidade foi construída pela Aços Finos Piratini. São exemplos da relevância desta empresa para o município. III-PROBLEMA Investigar a História da Aços Finos Piratini de sua origem até os dias de hoje buscando fontes históricas diversas. Compreender como se desenv...

UMBU - A LENDA

Existe uma lei no Pampa: todo gaúcho que cruza com uma árvore de umbu sempre tira o chapéu e faz uma saudação. É um costume tão antigo, que muitos nem sabem o motivo da reverência. Os escravos apreciavam o umbu pelo seu tronco largo e pela sombra de suas folhas, onde podiam descansar após um duro dia de trabalho. Os jesuítas que aqui aportaram séculos atrás utilizavam a árvore como demarcador de terras, um símbolo do Novo Mundo, aparecendo em vários mapas de toda a região platina. E antes ainda de os padres sequer pensarem em vir para a América, nossos índios já tinham muitas histórias sobre a árvore.  Ao longo dos tempos, a gente do campo criou outras tantas histórias em que o umbu aparece como amigo, pousada, abrigo, protetor, salvador, refúgio. Para muitos, é a árvore simbolo do Rio Grande do Sul.  Só que a madeira do umbu não presta para nada. É frágil, mole, quebradiça, sem uso, se desmancha com a menor força. De tão fina e sem consistência, o f...